"Aquela capa perturba"

Depois do segundo uísque, um amigo virou-se pro outro, estendeu-lhe um livro em posição de bandeja, ofereceu-lhe um canudo com a outra mão e convidou: "Vai aí?" O outro arregalou os olhos, apanhou o canudo já aproximando-o da "bandeja" e do nariz, quando viu que as duas carreiras de pó diante dele só existiam em duas dimensões.

O realismo da arte na capa de "Meu nome não é Johnny" tem provocado "pegadinhas" desse tipo por aí, e até depoimentos mais ou menos confessionais, como o do dramaturgo Domingos Oliveira, em texto sobre o livro publicado no caderno "Idéias" do JB: "Para quem já passou por alguma fase cocainal, aquela capa perturba...", escreveu Domingos, fazendo questão de mandar os parabéns, ali mesmo em público, ao autor da capa.

O "autor", na verdade autora, é a designer gráfica Gisela Fiuza, que já andou tendo a oportunidade de estragar as fantasias de gente que um dia gostou do tal pó brilhante. "Pode ficar tranqüilo, é tudo açúcar", ela garante. O realismo aumenta porque as carreiras de "cocaína" estão esticadas sobre a superfície de vidro de um porta-retrato. É como se elas rabiscassem a imagem da família modelo que aparece na foto, com a carteira de identidade do protagonista – usada para "bater" a cocaína – simbolizando também a identidade perdida entre a burguesia e o tráfico.

A produção da capa foi feita a partir de uma foto do álbum de família do próprio João Guilherme Estrella, tirada no final dos anos 60 diante do Pão de Açúcar. As fisionomias foram alteradas em computador, para preservar os pais e irmãos de João.

Até poucos dias antes da impressão do livro, a capa escolhida era outra, completamente diferente, da mesma autora. Mostrava um canto de cela escuro e vazio, com a luz fraca de uma pequena janela gradeada e um lençol improvisando um leito no chão. Um mural improvisado de fotos de familiares presas na parede e a ausência do protagonista da cena expressavam a idéia-título "Meu nome não é Johnny" – isto é: estou aqui, mas não estou. Ou: não reconheço em mim esse cara que veio parar aqui.

Aos 45 do segundo tempo, como se diz, a designer apresentou como alternativa a idéia da família cortada pela cocaína, e a Record bateu o martelo imediatamente pela nova proposta.

Com formação em propaganda, marketing e design, Gisela Fiuza faz parceria com o também designer Flávio Soares na empresa GF Design, que assina este site.

Em pouco mais de um ano atuando nas diversas áreas da comunicação, a GF Design já reuniu clientes de peso e trabalhos premiados.
(saiba mais em www.gfdesign.com.br )