Em julho de 2001, procurei João Guilherme Estrella e lhe propus que publicássemos a sua história. Considerando traumas, feridas abertas e riscos que estavam em jogo, não sabia como ele reagiria à minha condição central: revelar seu nome verdadeiro. Minha intenção era explicar-lhe que não desejava contar uma história verossímil, parecida com a realidade, ou apenas baseada em fatos verídicos (por mais excitantes que eles fossem): só me interessava a própria história real. E a verdadeira identidade do protagonista seria a pedra fundamental dessa autenticidade.

Mas não precisei explicar nada. João Guilherme foi logo dizendo: "Pode botar o meu nome." Topou no ato. Mesmo assim, para resguardar o projeto de eventuais reviravoltas, propus que ele refletisse sobre o assunto sem pressa, e amadurecesse sua decisão junto à família, aos amigos, ao seu advogado. Tivemos algumas conversas preliminares para delimitar o escopo do livro, e só voltei a procurá-lo três meses depois. João estava firme, mais decidido do que nunca a contar tudo: sua ascensão ao baronato da cocaína no Rio de Janeiro, suas aventuras entre a elite boêmia e o submundo carioca, seus vôos, seus tombos. E a mostrar sua cara.

Com a mesma convicção com que João aceitou o projeto, Luciana Villas-Boas apostou nele de saída, desde a primeira vez que lhe propus a publicação da história. Contei com seu incentivo nos menores detalhes, inclusive na decisão de que o livro trafegaria em mão dupla: mergulhando no fato criminal em si, mas também se distanciando dele - para procurar, à sua volta, a conjunção de tempo, espaço e gente da qual aquela história provinha.

Agradeço especialmente ao leitor número um deste livro, cuja agenda no final de 2003 mal lhe permitia ler as manchetes dos jornais, mas que o atravessou detidamente, página por página, devolvendo-nos seus comentários, seu parecer e - pretensão nossa - sua bênção: Zuenir Ventura.

A história foi escrita a partir de cerca de 30 horas de entrevistas gravadas com João Guilherme Estrella e com autoridades policiais e penitenciárias, familiares do protagonista e freqüentadores da noite carioca, além de registros da imprensa e documentos da Justiça. Os personagens que são apresentados sem sobrenome tiveram seus nomes verdadeiros trocados, por questões de privacidade e de segurança. Os que aparecem com sobrenome estão com seus nomes autênticos. Todos os fatos narrados são reais.

Guilherme Fiuza