Todos os personagens do livro – mais de 60 – são reais. Aqui você tem uma visão panorâmica deles, com trechos do livro em que cada um deles aparece.

João Guilherme Estrella - o protagonista

“(...) Ligou a água bem quente, adicionou bastante espuma, fechou a porta e desabou naquela banheira semi-olímpica. Era sua primeira pausa de verdade desde que iniciara a megaempreitada, e sua cabeça pôs-se a repassar toda a Operação Amsterdã (exportação de cocaína), desde o primeiro encontro com Felipe em Santa Teresa. Jamais imaginaria que um mês depois de ver os italianos caírem diante do Brasil, ele próprio estaria com a Itália a seus pés. Fora mais simples do que supunha, agora até parecia um filme.

“Mas o bom é que era tudo real. Os dólares, o banho de espuma em Veneza, a liberdade para fazer o que bem entendesse da vida. Aquilo tudo tinha um nome: poder. Sentiu orgulho da sua ousadia, da sua intuição, das suas manobras certeiras no fio da navalha. Montaria mais e melhores Operações Amsterdã, nada poderia detê-lo. Na calma daquele banheiro cinematográfico, com o vapor em suspensão acariciando-lhe a face, sentiu-se invencível. (...)”

Alcides (“Mick Jagger”)   Alex
Soldado do tráfico. O preso mais animado da PF   Fornecedor de cocaína da Conexão Nelore para o Rio
     
Flávio Furtado   João Estrella
Delegado da PF, responsável pela captura de João   Pai de João Guilherme
     
Lúcio   Marilena Soares
Boêmio, morador de Ipanema, grande amigo de João   Juíza federal que julga e condena João
     
Sebastião   Sofia
Psicótico homicida que marca João para morrer   Mulher de João na época do tráfico
     

(Os que estão sem sobrenome tiveram seus nomes trocados, por motivo de privacidade ou segurança. Os nomes em Azul indicam os personagens mais importantes).


Alcides (“Mick Jagger”)
Soldado do tráfico. O preso mais animado da Polícia Federal

“(...) A revolução se chamava Alcides, um sujeito elétrico, cronicamente inconformado, teimosamente animado. No momento em que foi jogado dentro da cela, parecia um Mick Jagger de cativeiro, indo, vindo e falando sem parar no meio de vinte infelizes que tentavam dormir.

“Parecia excitação da chegada. Vai ver tinha cheirado muito, era uma questão de paciência, de esperar a bateria do malandro acabar, porque ninguém é de ferro. Puro engano. Alcides era de ferro. Seu show durou a noite toda, e de manhã cedo, quando seria a hora de cair duro, ele estava mais ativo do que nunca: “entrevistando” os companheiros de cela, solicitando aos berros a presença de um guarda de cinco em cinco minutos, enfim, tomando providências como se tivesse acabado de assumir a presidência de uma grande empresa. (...)”


Alex
Principal fornecedor de cocaína para João (Conexão Nelore)

“(...) O homem da mala não tinha mais que 30 anos, e seu humor radiante contrastava com sua condição física. Preso a uma cadeira de rodas, ficara paraplégico num acidente de carro cinco anos antes. Na época, não era traficante. Tinha uma confecção de roupas em Petrópolis com sua namorada de muitos anos, que acabou morrendo no acidente. João ainda não tinha idéia do tamanho de Alex na escada do tráfico, só sabia da estupenda qualidade do seu produto. Logo descobriria que uma coisa estava ligada à outra.”

“(...) O estilo de Alex também o encorajava. No topo daquele big business, que já seria tenso mesmo se não fosse criminoso, o comparsa nunca perdia a serenidade e o bom humor. Chegava dirigindo um Gol adaptado para paraplégicos, com todos os comandos nas mãos, e jamais se limitava ao contato comercial — tinha sempre uma história ou uma piada para contar. Volta e meia aparecia com uma mulher bonita do lado, entre as várias namoradas que tinha, o que intrigava João. Afinal, Alex podia ter grana, carisma e até uma boa pinta (moreno de traços finos e estatura mediana), mas era paralítico. (...)”


Alexandre Quental
Músico, inspirador da veia roqueira de João

“(...) Desde que testemunhara o histórico show da banda inglesa Genesis no Maracanãzinho, em 1977, João estava cada vez mais voltado para a música. Começou a aprender cavaquinho junto com o irmão André, que se especializava rapidamente no chorinho, enquanto ele insistia em tentar extrair rock’n’roll do delicado instrumento.

“Quando conheceu o violonista Alexandre Quental, irmão da cantora Dulce Quental, ambos excelentes intérpretes de rock, compreendeu que Pink Floyd não podia ser tocado em cavaquinho. Para alívio dos fãs de “Brasileirinho”, comprou um violão. (...)”

André Estrella
Irmão mais novo e seu professor de violão

“(...) Como músico, João sempre foi do tipo força cega, um cantor instintivo sempre em dívida com a técnica instrumental. André, um virtuoso da prática e da teoria musical, ajudava-o a abater essa dívida. Os dois formavam uma química fértil (se eles fossem os Beatles, seria o encaixe entre o talento rude de John Lennon e a perícia cirúrgica de George Harrison). João e André já tinham levado aquela química várias vezes ao palco, mas entre quatro paredes ela também funcionava — às vezes até melhor.

“O problema é que Ernesto, aquela figura estranha, já devia estar quase chegando ao ponto de encontro. João acordou do transe musical e cumpriu em cinco minutos o trajeto de pouco mais de um quilômetro entre a casa do irmão, em Laranjeiras, e a boca do Túnel Rebouças. (...)”


Antônio Desidério dos Santos
O “Dinossauro”, interno do manicômio judiciário

“(...) Começou a procurar os mais angustiados e propor entrevistas tipo pingue-pongue com eles para o Correio do Amanhã, o jornal da comunidade do Heitor Carrilho. Só valia falar a verdade. Produziu assim algumas pérolas de reportagem, como a entrevista com um ex-peixeiro da Praça XV apelidado de “Dinossauro” (os colegas achavam que seu rosto largo e envelhecido era “pré-histórico”):
Nome: Antonio Desidério dos Santos
Apelido: Dinossauro
Pergunta: Por que você está aqui?
Resposta: Porque eu roubei a bicicleta da Funerária em Bento Ribeiro, onde eu moro.
P: Há quanto tempo você está internado?
R: Há cinco anos e quatro meses.
P: O que você acha desse lugar?
R: Muito ruim.
P: Por quê?
R: Porque bom é a rua, onde tem dinheiro, mulher e trabalho.
P: Você tem contato com a sua família?
R: Já mandei cartas e, até hoje, nada.
(...)”


Arthur Lavigne
Advogado criminalista

“(...) O barulho do telefone quebrou o silêncio da madrugada no
apartamento do advogado Renato Neves Tonini, na Praia de Botafogo. Eram três horas da manhã de quinta-feira, 26 de outubro de 1995. Tonini atendeu no segundo toque, e acionou aquele dispositivo próprio dos advogados e dos médicos, que lhes permite passar da obscuridade do sono profundo à lucidez total em poucos segundos. É o tempo do interlocutor dizer o seu nome do outro lado da linha.

— Tonini, aqui é o Arthur Lavigne — disse a voz que o arrancara da cama, enquanto o dispositivo de emergência ressuscitava suas faculdades mentais. Lavigne foi didático e conciso, como convém ser numa hora dessas: fora procurado por uma pessoa de suas relações, pedindo ajuda para um sobrinho que acabara de ser preso pela Polícia Federal com cocaína. Seu escritório não tinha disponibilidade naquele momento para atender à solicitação, e ele estava indicando Tonini para o caso. O telefonema foi concluído com uma informação importante:

— Olha, a questão não é de uso de drogas, não. É tráfico. (...)”

Ary Sobral
Compositor, exilado na fronteira hippie de Arraial D’Ajuda (BA)

“(...)Entre os “exilados” naquela Arraial d’Ajuda ainda sem luz elétrica estava Ary Sobral, um professor de matemática de Niterói (RJ) que jogara tudo para o alto e decidira nunca mais calçar sapatos. Ao lado de uma morena mineira por quem se apaixonara, fixara-se numa espécie de chácara no início do caminho de terra que atravessava a barreira de floresta atlântica rumo ao mar. Naquele retiro espiritual, levou uma vida pacata até o dia em que, de uma velha Brasília coberta de barro, desembarcaram João Guilherme, sua cadela Diana, seu violão e alguns drops de LSD. (...)”


Capeta
Interno do manicômio judiciário, “amante” do travesti Michele

“(...) — Vocês ficam cheios de onda aí, mas não são de porra nenhuma. Eu fujo dessa merda a hora que eu quiser. Querem apostar?
Os outros riram, apostaram um sanduíche e desdenharam, mas o Capeta pôs mãos à obra. Chegou perto do muro, pediu um calço, grudou que nem lagartixa no topo do paredão e no mesmo balanço já jogou as pernas para o outro lado. O guarda estava meio de costas e quando se virou, Capetinha já tinha se atirado lá de cima para a rua. Automaticamente, o guarda descarregou sua pistola em direção ao fugitivo, que sumiu ziguezagueando pelas vielas do morro vizinho. Capeta conseguiu, e João viu com seus próprios olhos que, se fosse o caso, seguir pelo mesmo caminho era praticamente uma questão de vontade. (...)”

Charles
“Chefe” da cela da PF reservada a uma facção criminosa

“(...) Ainda tentando digerir seu encontro/desencontro com Sofia, João entrou na cela acesa às três horas da manhã e atraiu todos os olhares. Os presos interromperam o desenrolado e se moveram até formar um cerco à sua volta. Gelou: o problema dessa vez era com ele. Rapidamente, começou a atinar o quanto tinha sido imprudente. Passara três horas fora da cela, num horário daqueles, gentilmente conduzido pelo carcereiro, sem dizer nada a ninguém. Era uma situação totalmente atípica na rotina da carceragem. Estava preso há apenas duas semanas, e aos olhos dos outros, um privilégio daqueles fatalmente acenderia suspeitas sobre em qual time João jogava.

“Depois de um breve silêncio, três dos bandidos mais influentes da cela, todos com patentes respeitáveis no tráfico — um deles dono de bocas-de-fumo — discutiram entre si quem seria o porta-voz do comunicado a João. Coube a Charles, o dono das bocas, o discurso sintético:

— É o seguinte: tá todo mundo achando que tu é “cagüete”. A parada vai ficar ruim pro teu lado. É melhor tu arranjar um jeito de explicar o que tu fica fazendo lá com os federal. Mas vai ser difícil de explicar. (...)”


Danilo
Psiquiatra viciado em cocaína, um dos clientes vips de João

“(...) João começou a achar que a coisa ia acabar mal no dia em que marcara um encontro com o Dr. Danilo na rua, e o viu chegando a pé, lentamente, quase pele e osso. Perguntou a ele se o carro tinha enguiçado, e o médico respondeu que estava “preferindo caminhar”. Na verdade, tinha “cheirado” seu automóvel. Vendera-o para comprar droga, provavelmente porque seu consultório vinha se esvaziando — o que dava para notar pela quantidade cada vez maior de tempo livre que ele parecia ter. Os clientes estavam debandando, e não era difícil imaginar por quê. (...)”

Dedé
Traficante preso no manicômio, onde virou rapper

“(...) De fato, Dedé era um paranóico. Já comentara com João que a cocaína “não lhe fazia bem”, mas só deu para compreender o que significava aquilo vendo com seus próprios olhos a reação do bandido ao aspirar uma carreira (“importada” do presídio ao lado). Em dois minutos, começou a esticar o pescoço para a entrada da galeria, como se observasse alguma movimentação suspeita, e passou a correr de um lado para o outro aos gritos:
— Estão chegando, estão chegando! Eles vão invadir! — berrava horrorizado.
João se assustou, olhou na mesma direção que ele, mas não percebia um leve ruído sequer nas imediações. O outro, porém, insistia desesperado, agora já se jogando debaixo da cama:
— Os inimigos vão invadir! Cadê o meu fuzil, porra!
Certamente, o delírio persecutório provinha de vivências reais de guerrilha. Mas passava rápido. E em seu estado normal, Dedé era um cara engraçado, até sereno. (...)”


Delator linchado
Preso da Polícia Federal que denunciava “esquemas” por carta

“(...)A coisa era organizada: a surra seria dada por quatro presos. Mas quando as portas das celas para a galeria foram abertas, a fúria dos quatro para cima do delator ecoou naquele ambiente fechado como a passagem de uma cavalaria. Encurralaram o infeliz na última cela do corredor e o espancaram por uns dois minutos seguidos, usando até cabo de vassoura. A vítima urrava e, numa manobra de sobrevivência, conseguiu escapar da cela e correr até a grade que dava para fora da galeria. Completamente ensangüentado, o rosto já começando a se desfigurar, gritou desesperadamente por socorro. O policial de plantão chegou calmamente próximo à grade, olhou para a cara do delator e falou em tom suave:
— Por que você tá tão nervoso? Estão batendo em você? Mas eu não tô vendo nenhuma marca... Vai lá pra dentro e se acalma. (...)”


Diana
Cadela dobermann fiel e inseparável de João Guilherme

“(...) Ali passou a se retirar por períodos cada vez mais longos, até fixar residência. Mudou-se com meia dúzia de trapos, sua cadela Diana e o violão. Sozinho ou com sua banda Água de Coco, tocava por um peixe ou algumas cervejas. Não tinha emprego e não era um desempregado. Nesse ponto, Diana acabaria indo contra a sua religião. Dobermann de ótima índole, vivia solta na aldeia, ia à praia cada dia com uma companhia diferente, às vezes só reencontrava o dono de noite. Mas começou a mostrar falta de apetite, e João estranhou. A cadela continuava forte e bem disposta, mas quase não olhava para sua tigela. Certo dia, andando pela rua da igreja, ele viu Diana saindo de um bar com um graúdo pedaço de filé pendurado na boca.
— Diana, sua sem-vergonha, onde você roubou essa carne?! — interveio, já prevendo encrenca com o dono do bar.
Mas foi o próprio que veio esclarecer a situação, agradecido. Mediante o pagamento de um generoso filé por dia, a Dobermann vinha botando para correr a gangue de vira-latas que fazia ponto na calçada do comerciante. Isto é, Diana arranjara um emprego. (...)”


Eduardo Lordão
“Ladrão de casaca” e fã do U2, preso no manicômio

“(...)Eduardo ainda não tinha 30 anos, era alto, boa-pinta, e talvez fosse o preso de origem social mais próxima da de João. Também era filho da classe média carioca, freqüentara bons colégios, mas estava ali por motivos diferentes. Nunca tinha traficado drogas, seu crime era mais peculiar.

“Vestido impecavelmente, ele aplicara pequenos golpes de invasão pacífica de residências, iludindo empregados desavisados. Fazia-se passar por um parente da família, que estava ali para buscar uma encomenda qualquer. Quando o discurso colava, passeava tranqüilamente pelos cômodos da casa recolhendo objetos de valor, no melhor estilo ladrão de casaca, e depois despedia-se cordialmente, deixando lembranças aos “primos”. Assim como João, também era candidato, naquele final de 1996, ao benefício de passar fins de semana em liberdade. (...)”


Elza Ibrahim
Psicóloga do manicômio judiciário

“(...) A força descomunal adquirida pelo doente nessas horas provinha do desespero pela sobrevivência (de alguém acuado pela situação-limite de matar ou morrer). Elza nunca fora alvo da violência dos doentes, andava sem guardas pelas galerias, geralmente acompanhada de algum paciente mais antigo. Na única vez em que esteve prestes a ser atacada, escapou a tempo. Fábio era um rapaz muito pequeno e magro, mas seu grau de violência em surto parecia sobre-humano. Ficava, por isso, boa parte do tempo isolado na ala feminina. Certa vez, sozinha com ele em sua sala, a psicóloga percebeu tarde demais, pelo olhar parado do paciente, que a crise ia explodir.

— Fábio, por que você está olhando pro meu pescoço? — tentou negociar Elza.

Mas a mente de Fábio já estava impenetrável ao diálogo. Ela só teve tempo de posicionar-se mais próximo do que ele da porta de saída. E pular fora no último instante. (...)”


Ernesto
Piloto de stock car e cliente delator

“(...) Nascido numa família de classe média baixa, morador do Jardim Botânico, Ernesto vendia seus serviços para fuga de assaltos a banco. Também costumava ser solicitado na praça para os golpes do seguro contra acidentes, jogando carros em alta velocidade contra postes e muros, para que tivessem perda total.

Existem os picaretas metódicos, desses que conseguem ser caxias dentro das regras da delinqüência, mas nem isso ele era. Se há gente que Deus já põe no mundo com cara de traidor, ali estava um exemplar típico — e já tinham avisado a João que, no caso de Ernesto, as aparências não enganavam. Por isso é que o encontro ia ser na rua, e João já estava em cima da hora. (...)”


Fernandes
Professor de física do Instituto Souza Leão, no Jardim Botânico

“(...) Havia chegado um momento em que alguns mestres mal conseguiam adentrar a sala de aula, tal a intensidade do fogo cruzado nas guerras de giz. Mas Fernandes, um professor de Física com pouco mais de metro e meio de altura, conseguira uma misteriosa trégua. Os outros professores não entendiam como, em suas aulas, não era disparado um só bólido branco. Seu segredo: um belo dia subiu numa cadeira e, aos gritos, sugeriu um pacto.

— Rapaziada, proponho um cessar-fogo. Se vocês toparem, prometo patrocinar uma grande guerra no fim do semestre, e aí eu vou entrar também — radicalizou o mestre.

Ele garantia ainda que a tal batalha final teria o dobro da munição, divisão da sala em trincheiras e duração de duas aulas seguidas. O acordo foi aceito e cumprido por ambas as partes. Fernandes vendera a alma ao diabo. (...)”


Fernando Manhães
Paciente esquizofrênico do manicômio, goleiro do time do diretor

“(...) Em outro lance brusco, o sujeito (Fernando) girou uma das armas no ar, passando a segurá-la pela ponta afiada e apontando o cabo em sua direção. “Caralho, o cara quer duelar. Que pesadelo. Pego ou não pego essa porra?”, pensava João, quando o outro finalmente quebrou o silêncio e desfez suas dúvidas:

— Isso é pra você. Um presente pra você se defender. Estou te dando porque fui com a tua cara.

— Valeu — respondeu João num fiapo de voz que quase não saía.

Iniciava-se ali uma das amizades mais duradouras que João faria no manicômio. (...)”


Flávio Furtado
Delegado da Polícia Federal, responsável pela captura de João

“(...) O delegado Furtado nunca se cansou de repetir aos seus comandados: combater o crime é como montar um dominó gigante, desembaralhando as informações e conectando-as, de par em par, sem precipitação — o peixe sempre morre pela boca. Nunca acreditou nas ações espetaculares e demonstrações de força, como certos tipos de blitz que rendem manchetes de jornal. Viu CPIs barulhentas e procuradores mais afoitos do Ministério Público jogarem investigações inteiras por água abaixo na ânsia de conseguirem alguma publicidade. (...)”


Fred
Amigo que paga parte do resgate de João, seqüestrado por policiais

“(...) Na manhã de segunda-feira começou a corrida contra o tempo, e o primeiro telefonema foi para Fred, um jovem empresário carioca, amigo de infância e de algumas loucuras na juventude também. Não era seu único amigo rico, mas era o mais íntimo. Uma das últimas vezes que estiveram juntos havia sido em torno de algumas carreiras de pó. Continuava sendo um telefonema delicado, mas pelo menos o assunto não seria estranho ao outro. João ligou e não fez rodeios:

— Fred, dancei. Tô na mão dos caras. Preciso de 10 mil dólares pra sair fora. É muita grana, eu sei, mas quero saber se posso contar contigo. (...)

Fred ficou abalado com o drama do amigo, mas não foi paternal. Sabia que João estava metido com tráfico pesado, e já o havia censurado mais de uma vez. Perguntou se ele teria como pagá-lo. João tinha um terreno na Bahia, próximo a Porto Seguro, e ficou combinado que iria empenhá-lo como garantia para a dívida. (...)”


Funcionário do Fórum do Rio
Dublê de negociador de pó

“(...) Essa ousadia cega também lhe abria fronteiras. Uma delas levava ao interior do Fórum do Rio de Janeiro, provavelmente o lugar mais estranho onde João negociaria drogas. Comprara certa vez no Leblon uma cocaína de excelente qualidade, e passara a recorrer com freqüência a esse fornecedor. A certa altura, o sujeito disse a João que, se quisesse continuar comprando, o procurasse na 6ª Vara de Família.

Entendendo que deveria ser um ponto de encontro, João foi até lá e logo localizou seu fornecedor. Ele era funcionário do Fórum, e recebeu-o como se atendesse um advogado interessado em consultar algum processo. Encaminhou-o então a uma pequena sala anexa e, ali mesmo, retirou de uma caixa um saco de pó branco com os 50 gramas de cocaína encomendados. João ainda manifestou um certo receio de sair andando com aquela quantidade indecente da droga pelos corredores do Fórum, mas o parceiro não pareceu preocupado:

— Não tem erro, não. Aqui no Fórum é limpeza. (...)”


“Garry Lopez”
Paciente psicótico violento, sósia do surfista havaiano

“(...) Numa tarde quente, seus movimentos começaram a parecer mais nervosos, e passou a andar de um lado para outro da cela bufando e pisando forte. Parecia prestes a surtar, e não deu outra. De repente, soltou um grito primal, saiu dando golpes a esmo em todas as direções, e logo chegou à televisão. Com um tapa jogou a antena longe e começou a chutar o aparelho, com violência suficiente para fazê-lo em pedaços. João sentiu que seria o próximo alvo daquele trator desgovernado e, quase que por reflexo, lançou-se sobre ele, conseguindo com um primeiro tranco afastá-lo da TV.

Espumando, “Garry” direcionou toda a sua fúria para o agressor. Trocaram uma violenta seqüência de socos até que João acertou-o na ponta do queixo e o fez cair. Nesse momento, o agente do Desipe de plantão invadiu a cela e deu “voz de prisão” a João Guilherme. Estava sumariamente condenado a passar nova temporada enclausurado na tranca. Na sua ficha ficaria o registro grave de que agrediu um doente crônico, o que era péssimo para o seu processo. (...)”

Gilda Sobral Pinto
Psicanalista, tia de João e testemunha de defesa

“(...) Maria Luiza encontrou-se com Gilda no dia seguinte sem saber de nada disso. A cunhada precisava encontrar uma forma de dar a notícia com jeito, ao menos mais suavemente do que o RJ TV. A mãe de João chegou reclamando que tivera uma noite péssima, desassossegada, acordando a todo momento como se tivesse uma preocupação que não sabia qual era. Psicanalista, Gilda não perdeu a deixa:
— Acho que você tem motivos para isso.
Depois de 40 anos de amizade, uma sabia ler perfeitamente a expressão da outra, e Maria Luiza viu que o assunto era grave. Perguntou logo se algo acontecera com seu filho mais velho, e a cunhada respondeu, sem rodeios, que ele tinha sido preso. (...)”


Inglês jogador
Preso da Polícia Federal viciado em gamão

“(...) Foi receber o dinheiro do gordão inglês, que era o fiel depositário do prêmio. Na hora agá, porém, mostrou que de fiel não tinha nada.

— Money? What money? — respondeu, dizendo que apenas coletara a grana, deixando-a sob a guarda do italiano. (...)

Esperou sentado um dia inteiro, e como nada acontecesse, voltou à cela do inglês ao anoitecer. Ele estava lá, calmamente, jogando uma partida de gamão com o italiano, como se nada tivesse acontecido. Era uma figura irritante, e ligeiramente covarde, apesar do tamanho. Se não estivesse jogando gamão, o inglês estava jogando baralho ou comendo, sempre chapado. Certa vez, ficou claro até onde ia sua arrogância, num bate-boca inflamado com “Mancha Negra”, um jovem delinqüente que devia ter metade da sua massa corpórea. O apelido se devia a uma marca na pele causada por um irmão mais velho, que lhe jogara óleo fervendo no rosto. “Mancha Negra” chamou o gringo para a briga, e ele desconversou, nitidamente amedrontado. (...)”


Japonês incendiário
Preso por tocar fogo na fábrica do pai. Também maníaco por gamão

“(...) Até então a partida não tivera platéia. Mas no que os outros presos viram o samurai imperturbável xingando e chutando a grade da cela, começou a juntar gente para ver o que estava acontecendo. Os brasileiros não conheciam as regras do jogo, mas logo entenderam que João tinha chances de uma virada sensacional, e passaram a embarcar na vibração dele. Ver o japonês fora de si não tinha preço. Evidentemente, àquela altura, com aquela barulheira, ele já estava completamente desconcentrado — o que no gamão é fatal —, mas ainda assim o jogo continuava parelho.

“Nos lances finais, porém, João tirou uma seqüência sobrenatural de quatro “dobras” (quando os dados saem iguais e os pontos são multiplicados por dois) e liquidou o adversário. Não acreditando no que via, o japonês agarrou o tabuleiro e atirou-o para o alto, fazendo-o bater contra o teto e espalhar as peças por toda a cela. O espetáculo de fúria levou a platéia ao delírio. (...)”


João Estrella
Pai de João Guilherme

“(...) Qualquer que fosse o páreo, sempre que podia, João Estrella chegava na frente. E não poderia deixar de ser o primeiro da rua a ter uma TV em cores, quatro anos depois da viagem ao México. O Brasil ia disputar o tetracampeonato na Alemanha, e só na casa dele, comprada num belo condomínio do Jardim Botânico pouco mais de um ano antes, os vizinhos saberiam que o amarelo era amarelo, e o azul era azul. Estava armado o circo para mais uma vitória ao lado de João Guilherme. Mas era chegada a hora, no futebol e na vida, de adiar os sonhos. Alguns, para sempre. (...)”


Seu Joãozinho
O agiota do manicômio judiciário

“(...) Com 60 anos, Seu Joãozinho estava preso havia 20 e chamara a atenção de João por ser uma figura solitária na vida. Não tinha perspectivas de sair dali, basicamente por não ter mais quem afiançasse sua reintegração à sociedade. Aos poucos a família fora virando-lhe as costas, e naquela altura ele sequer sabia o paradeiro de algum parente seu. Não se tornara um revoltado, nem transparecia amargura. Nas negociações com o destino, abrira mão de quase tudo — e nessa resignação parecia estar a chave da dignidade com que vivia. Não tinha projetos, mas também não tinha frustrações. Montara para si uma rotina honesta e confortável dentro dos passos miúdos que a vida lhe permitia dar.

“Miúdos mesmo. Seu Joãozinho tinha pouco mais de metro e meio de altura, nariz grande e cabelo grisalho apenas nas laterais da cabeça, o que o tornava um perfeito anãozinho da Branca de Neve. Poderia ser o Zangado, devido ao ar quase carrancudo que escondia um temperamento sereno e até afável. Tinha algumas economias que lhe garantiam poder para manter alguns privilégios materiais além do que o manicômio provia. Essas economias pareciam não se esgotar nunca, e um dia João entendeu que Seu Joãozinho era o banqueiro do pedaço. (...)”

Jonas
A mula da Conexão Nelore

“(...) Em Bruxelas, Jonas recebeu-os radiante. Embora fosse de temperamento fechado, bem sisudo, era impossível não transbordar alegria depois de atravessar incólume fronteiras nacionais e continentais com uma carga explosiva daquelas. Se os outros ainda iam conviver um bocado com o carregamento da droga, para ele ali era o fim da linha, o alívio definitivo. Sairia para passear com a namorada pela região, e três dias depois os reencontraria em Amsterdã para receber seus 10 mil dólares. (...)”


Jorge Pintchevsky
Violinista clássico e caçador de verões

“(...) No verão de 1984, a Água de Coco balançava os coqueiros na praia da Pitinga, onde se chegava com dez minutos de caminhada pela beira do mar, pela avenida de areia dura que se formava com o recuo da maré. Era noite de lua cheia, e o luar era ainda mais prateado e exuberante para aqueles olhares quimicamente aguçados. No meio da viagem sonora, João e Ary se entreolharam intrigados. Tinham tido a mesma impressão, ao mesmo tempo, de que um outro som se somara ao das suas vozes, violões e atabaque. Continuaram tocando, achando que devia ser apenas mais uma alucinação, mas o tal som reapareceria, agora mais alto, agudo e melódico.

“De repente, de trás de um arbusto próximo, surgiria a resposta: um homem pequenino e sorridente, empunhando um violino, tirava do instrumento clássico um solo pop, em perfeito encaixe de tempo e harmonia com a banda praiana. João, Ary e as demais testemunhas daquela aparição insólita foram ao delírio. (...)”


José Renato Avzaradel
Psiquiatra, perito do Estado

“(...) Debaixo da intensa pressão, porém, o psicólogo agüentou o tranco. Reagia às estocadas da juíza com tranqüilidade e segurança nas respostas, dando a impressão de que sabia do que estava falando. Foi didático sobre a personalidade do réu, explicou os sinais da falsa lucidez proporcionada pela cocaína, e justificou a diferença do seu diagnóstico para o de Laura: apesar do consumo muito maior de drogas, João apresentava mais coerência no raciocínio em geral e nas respostas que dera durante a perícia. Demonstrava também maior equilíbrio emocional, o que a própria juíza já pudera constatar na audiência anterior.

— Assino embaixo do meu parecer, excelência, e assinarei de novo se for preciso.

O laudo estava salvo. Ou, pelo menos, não tinha sido enterrado antes do tempo. (...)”


Juan Martinez Navarro
Espanhol viciado em cocaína que denunciou João à Polícia Federal

“(...) Uns dois minutos depois, a sensação opressiva finalmente desaparecera por completo, permitindo-lhe abrir os olhos e “sentir-se bem” pela primeira vez na caçamba de um camburão. (...) Os três chegaram a conversar um pouco, mas a tranqüilidade não ia durar. A polícia estava para enfiar mais uma sardinha naquela lata, e o novo passageiro não era exatamente alguém bem-vindo: Juan Navarro, o espanhol que delatara João à polícia. (...) Controlando a duras penas seu impulso de trucidá-lo ali mesmo, João viu a tal figura ser enfiada naquele espaço exíguo, a centímetros de distância dele, o suficiente para que sentisse o cheiro do seu suor. Com as mãos imobilizadas pelas algemas, sua vontade era estourar o nariz do espanhol com uma cabeçada. Mas começou agredindo-o apenas com uma pergunta intimidatória — desafiando-o a dizer o que ia fazer no fórum. Nem bem começara a inquisição, porém, foi surpreendido com uma explosão de fúria de Navarro. (...)

“Depois do choque inicial pela reação inesperada, a raiva de João triplicou, e possivelmente os dois teriam se comido vivos se Laura e Jonas não tivessem se jogado entre eles (...)”


Juliana
Mulher de João na fase pós-prisão

“(...) João também a ouvia muito. Dizia a ela coisas que não diria a mais ninguém, deixava seu demônio falar à vontade e fazer suas bravatas. Numa delas, no auge da falta de grana, ele lembrou as altas ofertas que já recebera de traficantes e fez as contas em tom de desabafo:

— Calcula aí: três quilos de cocaína pura, vezes 30 mil dólares, é igual a...

— Trinta anos de prisão — cortou Juliana de bate-pronto, mandando o demônio de volta para o seu lugar com o rabo entre as pernas. (...)”


Júlio
Fornecedor que João ultrapassa na hierarquia do tráfico

“(...) Certa vez, João atrasou o pagamento além do normal, coisa rara, e estava confiando na sua lábia para contornar a situação. Até que, pela voz fria e robotizada de Júlio, soube que sua pele estava valendo pouco no mercado futuro.

— Cara, é o seguinte. A grana não apareceu, e já passou um tempo. Agora neguinho lá em cima tá querendo saber quem é, pra dar uma dura — avisou o fornecedor. Fosse o que fosse a tal “dura”, a única certeza era de que seria muito dura. E que seu escalpo não estava em bons lençóis.

Era impossível não lembrar desse sufoco depois que a roda do mundo tinha colocado João olhando de cima para Júlio, agora um humilde cliente. Mas nenhuma ameaça havia se concretizado e não havia motivo para rancores contra o antigo fornecedor, fora a péssima qualidade da sua cocaína. (...)”


Laura
Amiga de João, presa com ele pela Polícia Federal

“(...) Se a vida dá a cada um seu momento de direito ao desespero, o de João havia chegado. Mas ele continuava impávido, como uma jibóia que acaba de engolir um boi, incapaz de fazer qualquer movimento antes de assimilá-lo totalmente. Já Laura continuava exercendo plenamente seu direito ao desespero. Foram duas horas trancados no apartamento com os policiais, e duas horas de choro caudaloso. Numa das raras pausas, já exaurida por sua própria tensão, ela resolveu fazer um apelo aos federais:

— Olha, tô muito nervosa, assim eu não vou agüentar. Vocês se incomodam se eu fumar um baseado? (...)”


Leôncio
Especialista em transporte disfarçado de drogas

“(...) Os narizes europeus não perdiam por esperar. Mas faltava articular uma perna da operação, que era a logística para o transporte da droga. Leôncio era o homem certo. Violonista clássico de razoável sucesso profissional, 38 anos, alto, forte e pacato, ele já tivera negócios com João. (...) Além de supervisionar a mula (a pessoa que levaria a carga consigo), cuidando de toda a parte de passagens, rotas e hotéis, Leôncio dominava as mais avançadas técnicas do disfarce.

A chave do esquema era o personagem do “artesão”, um costureiro aliciado por ele para submeter casacos comuns a uma transformação cirúrgica. Eles eram inteiramente desmanchados e praticamente refeitos com cocaína dentro. O forro era retirado, e em lugar dele introduzidas centenas de saquinhos cheios de cocaína, por sua vez costurados entre si, um a um, como escama de peixe. O novo “forro” era ainda revestido de carbono e lã de vidro, para embaçar a fiscalização por raio x, e recebia um spray repelente para cadelas no cio, que afastava os cães farejadores e tinha efeito por no mínimo 24 horas. A vestimenta era então reconstituída em detalhes, com suas costuras desenhadas e reforçadas exatamente como no original. O serviço saía tão perfeito que, depois de vendida a cocaína, retirá-la dali era trabalho para várias horas. (...)”


Lúcio
Boêmio, morador de Ipanema, grande amigo de João

“(...) Tentou pensar, entre seus muitos amigos, quem seria o mais independente, desprendido, dono de sua própria rotina, companheiro e irresponsável. Acendeu-se imediatamente em sua cabeça o nome de Lúcio. Pegou o telefone e ligou para ele no ato:

— Fala, Lúcio. Beleza? O que você vai fazer amanhã?

— Cara, de manhã tenho que fazer uns contatos pra um negócio novo que eu tô abrindo. De tarde, não sei.

— Quer ir comigo pra Amsterdã?

— Amsterdã?! Amanhã?! Tá maluco, cara? Europa não é ali na esquina, não. Porra, é amanhã mesmo? Contigo? Caralho... Bom, vamo nessa.

Lúcio era a companhia perfeita. Viajado, fluente em inglês, humor corrosivo, boa resistência alcoólica e química. Sabia do porte da transação que o amigo ia presidir na Holanda, por isso fez questão de confirmar que a droga seria transportada por outra pessoa e que João só ia para fechar o negócio. Enfim, recebeu a promessa de que não seria exposto em momento algum. E embarcou nessa doce ilusão. (...)”


Mamadouf
Um dos africanos que lotavam a cela mais quente e abafada da PF

“(...) Mamadouf era uma figura peculiar. Alto, negro e muito forte, tinha sido preso no Aeroporto Internacional do Rio com várias cápsulas de cocaína no estômago. (...) Apesar da aparência barra pesada, era um sujeito emotivo, às vezes sentimental, meio solitário. Quando se deprimia, avisava que ia se matar, que a vida não fazia mais sentido. (...)

“Alcides tentava coordenar um esforço geral para manter o ambiente em condições higiênicas razoáveis, mas a cela dos africanos não colaborava. Além de estar quase sempre suja, seus ocupantes ainda jogavam o excesso dessa sujeira para o lado de fora. O lixo, composto inclusive por restos de comida, ia se acumulando no fundo da galeria, e o calor enorme fazia-o apodrecer rapidamente, espalhando um cheiro de chiqueiro por todas as celas. Era um inferno, mas era também o que a ala da bandidagem carioca mais queria ali dentro: um motivo para sair na porrada com o inimigo. Qualquer inimigo. (...)”


Manoel Galliez
Parceiro de boemia

“(...) Como sempre acontecia, a conversa foi bater no período da cadeia, e João procurou explicar mais uma vez como tinha recebido uma pena tão reduzida. Estava falando da sua condição de viciado, dos laudos etc. quando foi interrompido por Maneco:

— Viciado? Essa não, tu nunca foi viciado!

— Claro que fui. Os peritos comprovaram e a juíza reconheceu. Isso foi a base da minha defesa, porra.

— Ah, é? Todo mundo acreditou nisso? Sensacional. Mas o João Guilherme que eu conheço não foi viciado porra nenhuma. Queria só se divertir sem trabalhar! — arrematou Maneco, dando uma gargalhada. (...)”


Marcelo
Jovem pai de família que enlouquece na cadeia

“(...) Tratava-se, antes de tudo, de um azarado. Não tinha nada a ver com aquele “cocainoduto”, apenas estava comprando alguns gramas de maconha para consumo próprio no momento em que a polícia estourou o QG de Alex. Marcelo era um pai de família da classe média petropolitana, comerciante, um sujeito correto e até caxias, cumprindo seu primeiro mandato como síndico do prédio onde morava.

“Desde o primeiro instante deu sinais de que não se conformava em estar preso. Tinham-no colocado no filme errado, e ele agia como se estivesse ali apenas para um pernoite até que o equívoco se desfizesse. Mas o equívoco ia durar muito tempo. (...)”


Marcelo de Andrade
Serial killer preso no manicômio

“(...) Como na música de Lobão e Cazuza, Robocópia era o tipo do louco que só poderia causar mal a si mesmo. Muito diferente de Marcelo de Andrade, 28 anos, que tinha sido notícia na TV e nos jornais por matar 13 crianças. Esse era um sádico, de olhar vazio, que não aparentava sua periculosidade. E nunca demonstrava suas intenções. Numa tarde, João estava à margem do campo de futebol, assistindo a uma pelada ao lado dele.

“De repente, num chute mal dado, a bola voou por cima do muro, caindo fora do manicômio. Como sempre acontecia, um preso e um guarda iam juntos buscá-la, saindo por um pequeno portão de ferro encaixado no muro. Naquele dia, a procura da bola demorou um pouco mais, e Andrade levantou-se dizendo que ia dar uma volta. Algum tempo depois que o portão fora novamente trancado e o jogo reiniciado, os guardas se deram conta do ocorrido: o serial killer tinha fugido. (...)”


Marcelo Serrado
Ator e parceiro musical de João

“(...) A vida não podia esperar. Desde que vira a performance de Lulu Santos, desenhara-se para ele pela primeira vez a figura do showman brasileiro. Passou a trabalhar tecnicamente sua voz grave e sonora, e a derramar no papel a expressão poética que lhe ocorria desde menino. Como vocalista e letrista, encaixou-se com perfeição numa banda formada pelo irmão André (que trocara o cavaquinho pela guitarra), pelo baixista Rodrigo Santos (que mais tarde integraria o Barão Vermelho) e pelo ator Marcelo Serrado (gaita e vocal de apoio). Era o Prisma — citação ao símbolo do antológico disco The dark side of the moon, do Pink Floyd —, que estrearia no Teatro Galeria em 1984, ano da morte de João Estrella. (...)”


Maria Luiza Estrella
Mãe de João Guilherme

“(...) A devoção quase religiosa por um dia de sol e céu azul era uma herança inequívoca de Maria Luiza, sua mãe. Desde a infância no Leblon, acostumara-se a vê-la escancarando as janelas do apartamento aos primeiros raios solares. Exclamava alguma saudação ao azul olímpico de aquarela e arrastava-o com os irmãos da cama para a praia, num entusiasmo quase impaciente. Não havia uma floração nova na cidade, por mais oprimida pela paisagem poluída, que passasse despercebida a Maria Luiza. Essa sintonia telúrica era o seu combustível cotidiano, seu poder de desconectar-se de alguns temas mais azedos da rotina. Talvez esse dispositivo tenha funcionado em relação às atividades “comerciais” de João Guilherme nos últimos anos. (...)

“Durante um bom tempo, supôs que o filho estivesse com problemas, mas de outra ordem. Quando telefonava para João, a qualquer hora do dia, ele freqüentemente atendia com voz de sono, irritadiço, dizendo-lhe que precisava descansar e cortando a conversa de forma seca. Ela reparou que ele quase sempre estava de nariz entupido, e passou a aconselhá-lo:

— Alguma coisa está te dando alergia, meu filho. Você precisa ver o que é isso. (...)”


Marilena Soares Reis Franco
Juíza federal que julga e condena João

“(...) A audiência prosseguiu, e João, cada vez mais acuado, sentia como se tivesse caído numa armadilha. Parecia apenas esperar o momento em que a doutora Marilena Soares diria “cortem-lhe a cabeça!” Mas em vez disso (ou pelo menos antes disso), ela lhe passou a palavra. Chegara a hora de defender-se com sua própria voz. E ela começou saindo embargada, entrecortada por alguns pigarros, mas foi-se firmando e, quando viu, João estava embalado, indo muito além das perguntas dirigidas a ele.

“Para contar a história do seu vício, praticamente repassou sua própria história. A lealdade quase ideológica ao prazer, a busca da liberdade acima das instituições e das regras, os golpes sofridos no universo familiar, o amor à vida. De sua cadeira, Renato Tonini vibrava em silêncio. Seu cliente deslanchara num improviso altamente convincente, jorrava sinceridade, e se o olho clínico de advogado não o estivesse traindo, a juíza encontrava-se visivelmente emocionada. (...)”


D. Marly
Velhinha traficante de Copacabana

“(...) Olhos claros e espertos, enxuta, cabelos bem pintados e passos firmes, Dona Marly não parecia uma senhora de 70 anos, muito menos uma traficante de cocaína. Mas quando João passava de carro em frente ao seu prédio, na rua Santa Clara, quadra da praia, para entregar a droga, ela aparentava 90 anos. Cobria a cabeça com um xale, se curvava toda e ia da portaria ao meio-fio com um passinho curto e uma fragilidade de dar pena. Uma ótima atriz. Então a pobre velhinha estendia a mão para dentro do carro e voltava para casa com seus 50 gramas semanais de pó, que revenderia para cerca de vinte clientes mais ou menos fixos. Um negócio de 5 mil dólares mensais líquidos, aproximadamente. (...)”


Michele
Travesti preso no manicômio judiciário

“(...) Michelle era um travesti internado lá há muito tempo, que tinha Aids e o corpo musculoso marcado por gilete. Em dois ou três episódios em que decidiram separá-lo de um namorado antigo, cortou-se inteiro ameaçando contaminar a todos com HIV. Capetinha convencera Michelle a ter uma aventura fora do seu “casamento” e, eufórico, mal deu atenção à cobrança preocupada do colega:

— Capeta, cadê a camisinha? Porra, tu sabe que a Michelle tem Aids!

— Que camisinha, Estrella? Tu acha que eu vou perder essa chance só por causa de uma camisinha? (...)”


Neguinho da sacola
Interno do manicômio que cobrava frete para ajudar visitantes

“(...) O tal rapaz entregou a Maria Luiza um pedaço de papel mais amassado que dobrado. Era um bilhete de seu carregador “titular”, justificando a ausência:

‘Aqui é o neguinho que busca a sua sacola no dia de visita (ele tinha quase dois metros de altura). Eu estou na tranca. Queria saber se a senhora não pode me arrumar um ou dois reais para eu comprar cigarro. Se for possível, envie pelo rapaz que está entregando o bilhete.’ (...)

“Personagem acidental de uma ópera surrealista, ela não tinha mais direito a estranhar nada. Se bobeasse, sairia daquele manicômio com dois filhos. (...)”


Pedro Cardoso
Ator, amigo de adolescência de João

“(...) Numa noite qualquer de domingo, esse passado invadiu a cela de João no manicômio. Em suas camas todos assistiam ao Fantástico na TV, que exibia o quadro de humor “A vida ao vivo”, com os atores Luiz Fernando Guimarães e Pedro Cardoso. Pedro fora colega de João no Souza Leão, e fizera parte daquela turma que batia ponto nas peladas da Pacheco Leão. O quadro parecia feito sob encomenda para a audiência do manicômio: tratava-se de uma situação nonsense em que os participantes de uma partida de futebol, absorvidos pelo clima de disputa, iniciavam o jogo freneticamente, mas sem a bola. O locutor também não notava esse detalhe e narrava de forma inflamada a evolução dos jogadores em campo: “Lá vai Pedro, passa por Vavado, tem a seu lado Bruno Fernandes, João Guilherme se apresenta...”

— Sou eu! — gritou João, levantando-se da cama e apontando para a TV. — Esse João Guilherme aí sou eu! — disse para os colegas de cela, reconhecendo emocionado a citação feita pelo amigo Pedro Cardoso.

— Ah, é? E eu sou o Cid Moreira — respondeu um dos internos, bocejando. (...)”


Policiais seqüestradores
Patrulha que captura João e exige dinheiro para libertá-lo

“(...) Logo que entraram no carro, João finalmente ouviu uma resposta às suas indiretas sobre “acharem juntos um final feliz”:

— O que você está querendo dizer com isso? O que você sugere?

Era a senha. Estava aberta a negociação. Não iriam direto para a delegacia. Mas isto significava também que, a partir daquele momento, tornavam-se invisíveis ao Estado de Direito. O Fiat 147 passava a ser território bandido. Em outras palavras, João tinha conseguido não ir preso, mas por enquanto estava seqüestrado. (...)”


Raimundo
Esquizofrênico, o Doctor Jekyll & Mr. Hyde do manicômio

“(...) E conviveu com ele bastante tempo sem o menor sinal de surto, até o dia em que Raimundo invadiu, transfigurado, a cela do dono da maior TV do manicômio. Era famoso o ciúme que o sujeito tinha do aparelho de 20 polegadas, que só podia ser ligado na sua presença, entre outros zelos. Raimundo destruiu a TV completamente em menos de dois minutos, repetindo o mesmo ritual de violência selvagem. Finalmente, depois de algumas tentativas, quatro fortíssimos agentes do Desipe conseguiram dominá-lo. Debatendo-se como um cão epilético, Raimundo começou a gritar que iam matá-lo, e nessa hora enxergou João do lado de fora da cela. Passou a dirigir-se desesperadamente a ele:

— Não deixa, Estrella! Não deixa! Eles vão me dar choque, não quero tomar choque! Não deixa! (...)
João resolveu arriscar uma intervenção para valer em sua defesa. Nesse momento, os homens do Desipe perceberam que a crise de Raimundo estava mesmo passando, o que fortaleceu o apelo de João. Finalmente, concordaram em abrir aquela exceção, mas o agente responsável deixou claro o que aquilo significava:

— Você está fazendo um apelo, e nós estamos atendendo. Mas você está assumindo uma responsabilidade que vai ser cobrada de você. Se o doente recair, fizer merda aí, a sua situação vai se complicar.

João topou o risco, disse que estava ciente, engoliu em seco e conduziu Raimundo por entre os curiosos para sua cela. (...)”


Renato Tonini
O advogado de João Guilherme

“(...) O primeiro alvo da defesa foi a suposta valentia de Juan Navarro, o delator. Tonini usou um argumento singelo: partindo do princípio de que o espanhol tinha amor à pele, ele jamais denunciaria João se este fosse o cabeça de uma quadrilha organizada e perigosa. Pelo simples motivo de que, nesses casos, como se sabe, a represália é uma questão de tempo, e Navarro não escolheria condenar a si mesmo perante o tribunal assassino do tráfico.

“ ‘O único interesse desse cidadão espanhol era reconhecer alguém que pudesse indicar como o fornecedor da droga com a qual foi surpreendido, pretendendo assim obter algum benefício legal pela delação’, alegou o advogado. ‘Para tanto, apontou João Guilherme por saber que ele não teria qualquer condição de atentar contra sua incolumidade física, eis que João não fazia e não faz parte de alguma falange criminosa — ao contrário da maioria dos outros presos nas celas do Núcleo de Custódia da Polícia Federal.’

“Era um jogo de xadrez, no qual Renato Tonini adotara a tática do contraveneno: em vez de abafar os fatos apontados pela acusação, se concentraria exatamente neles, interpretando-os pelo lado avesso. (...)”


Robocópia
Paciente delirante com estampa de “pessoa normal”

“(...) Quase nada naquele lugar era o que parecia ser. Uma de suas primeiras conversas longas lá dentro fora com um sujeito aparentemente normal, equilibrado, que lhe contava estar ali por engano. Narrou sua história com total lucidez, falou sobre a família e mostrou fotos — uma vida sadia comprometida por uma prisão indevida. Impressionado, João estava perguntando-lhe que providências tomara para desfazer a brutal injustiça, quando o sujeito deu um salto para trás e saiu correndo através do pátio.

“Com a agilidade de um chimpanzé em fuga, trepou em segundos no teto de uma guarita policial abandonada, situada na parte mais elevada do terreno. A face voltada para a baixada do pátio chegava talvez à altura de um prédio de três andares. Parado ali, a poucos centímetros da beirada fatal, gritou que todos se afastassem porque ia se atirar. Ainda tentando entender como acreditara na sanidade daquele tarado, João se deu conta da ironia: estavam exatamente no dia 1º de abril de 1996. O manicômio parecia um eterno Primeiro de Abril. (...)”


Rodrigo Santos
Integrante do Barão Vermelho, antigo parceiro musical de João

“(...) Logo João e Ary se tornariam a trilha sonora oficial da aldeia. A dupla ainda agregaria outros sons, como a gaita de Neno — carioca que ficou por lá de vez — e o violão pop-country de Rodrigo, baixista que tocara com João no Prisma. Juntos formaram a banda Água de Coco, que por cinco anos comandaria as noites lisérgicas de Ajuda. No início, vendo o sucesso que o grupo fazia, alguns donos de bares e pousadas tentaram organizar uma agenda de shows pelos points locais (instalados no casario pobre da vila de pescadores que acabaria rebatizada pelos novos freqüentadores de “Broadway”). O problema é que na segunda cerveja depois da praia alguém já providenciava o atabaque e o violão. Era só um aquecimento, mas geralmente ele ia até de manhã, fosse onde fosse — a aldeia tinha que andar atrás da banda. (...)”

Rogério
O primeiro fornecedor de cocaína de João

“(...) Em cima da hora, porém, os dois parceiros simplesmente desistiram do negócio. João queria esfolá-los, mas primeiro precisava abrir a porta para o traficante, que não tinha nada com isso. Era Rogério, um sujeito sisudo, porém jovem, morador de Ipanema, e seu pó era de ótima qualidade. O freguês teve que abrir o jogo. Disse que fora abandonado na transação e não tinha como pagar aquilo tudo. Mas antes que o mal-estar terminasse de se instalar, João resolveu dar uma cartada:

— Deixa a brizola comigo. Segunda-feira o dinheiro tá na tua mão.

“Era noite de sexta-feira, portanto o prazo era apertado e o fornecedor mal o conhecia. Recusou a proposta, mas ele foi firme na insistência e Rogério acabou topando o risco. Ainda no domingo receberia o telefonema: a grana já estava inteirinha na mão. (...)”


Sebastião
Psicótico homicida que marca João para morrer

“(...) João não demoraria a perceber que o problema era com ele. Sebastião não era de falar muito, mas a ele não dirigiria mais nem uma palavra. O ódio saía pelos olhos. Declarara-lhe guerra em silêncio, e João só foi saber o que aquilo significava exatamente quando um colega de cela veio lhe avisar:

— Estrella, o Sebastião te jurou de morte. Ninguém consegue tirar isso da cabeça dele.

Sem querer deixar a ameaça parada sozinha no ar, rebateu por puro reflexo:

— Ah é? Então manda ele vir, tô esperando.

“Mas esse era o problema maior. Sebastião não queria pegá-lo quando ele estivesse esperando. Não queria bravata, espetáculo ou demonstração de força. Queria apenas liquidá-lo. (...)”


Sofia
Mulher de João na época do tráfico

“(...) Sofia recebeu-o na mesa orgulhosa, encheu-o de beijos, mas levantou-se e saiu andando. João perguntou-lhe aonde ia e ela respondeu, sem olhar para trás, que ia ao banheiro. Sua caminhada sinuosa denunciava a quantidade de bebida ingerida — já estavam na sexta garrafa de vinho — e ele pediu que tomasse cuidado. Lembrou-a de que, além de tudo, tinha drogas de vários tipos na bolsa.

O cantor titular já reassumira seu posto, e João sentou-se para assistir. Uma música, duas, três e Sofia não voltava. Não devia tê-la deixado ir sozinha. Foi atrás dela, preocupado, e não a viu pelo caminho. Seria possível que ainda estivesse dentro do banheiro? Foi até lá, bateu na porta, gritou o nome dela, mas ninguém respondia. Não tinha jeito, teve que invadir. Sentada sobre a pia de mármore, encolhida, abraçando as próprias pernas, Sofia chorava baixinho. João correu em direção a ela:

— O que houve?! Você tá passando mal! Devia ter me chamado!

— Nunca me senti tão bem — disse ela sorrindo, com os olhos cheios d’água. Tinha começado a cantar, gostara de se ouvir na acústica favorável do banheiro, e ficara ali deixando a emoção aflorar. Só isso. (...)”


Suzana
Primeira paixão de João

“(...) O que tinha de suave, Suzana tinha de intensa e dominadora, e os curtos-circuitos com a personalidade inquieta e explosiva de João eram inevitáveis. Às vezes, podiam ser ouvidos por boa parte da vizinhança. Foram cinco anos de muito amor e sofrimento — como em todo casal jovem, mais amor no início e quase só sofrimento e represálias nos últimos anos. Agora, dez anos depois da última separação, as feridas estavam cicatrizadas e Suzana continuava linda. Bastava olhar para ver como a maturidade dos 30 lhe fizera bem.

“Mas era véspera de Natal e ela não poderia estar com ele, era dia da ceia com a família. Combinaram de se telefonar no dia seguinte. João não sabia muito sobre a vida atual da sua primeira namorada. Sabia que, como ele, ainda não tivera filhos, e que no momento não estava casada. Não tinha certeza se havia namorados na órbita dela. Dançaria conforme a música, até porque estava caindo de pára-quedas no mundo da normalidade. Da Barra ao Arpoador, de Ipanema ao Jardim Botânico, as vidas tinham seguido seu curso normal — ele é que precisava pular no trem em movimento. (...)”


Tarzã
Preso da PF que atuava como garoto de recados

“(...) O “correio” era Tarzan, um preso magricela que fora promovido a “faxina” por bom comportamento. Do outro lado, Laura, que tinha sido presa com João, receberia o recado de Tarzan para que fizesse uma versão para o inglês, caso a alemã não entendesse português. Se não quisesse ser esfolado, Tarzan deveria colaborar direitinho e, de preferência, trazer uma resposta logo. Mas o dia ia terminando e nenhum sinal, até que foram fechadas as galerias.

— Porra, agora não vem mais! — explodiu Alcides. — Que merda, Tarzan é um babaca. Não entregou o bilhete. Vou matar o Tarzan.

No dia seguinte, Tarzan apareceu trazendo o café da manhã e quase foi recebido a tapa:

— Pô, Tarzan, cadê o bilhete?! — cobrou o amante, ameaçador.

— Entreguei a ela, cara, juro — disse o faxina, com ar de súplica.

— E ela?

— Não me deu nada. Fui lá hoje de novo entregar o café e ninguém me disse nada.

— Filha da puta, ela não gostou — concluiu Alcides, caindo imediatamente em depressão. (...)”


Tenente da Aeronáutica
Freguês especial da cocaína “Nelore Puro”

“(...) Algum tempo depois, porém, como se tratava de um amigo dos mais confiáveis (e dos mais insistentes), João concordou em receber o militar apaixonado por sua cocaína. Era um tenente-médico, jovem, figura absolutamente caxias, que por um bom tempo viraria um de seus fregueses mais regulares — e mais discretos. Ao contrário da maioria, o militar era incapaz de telefonar em horários impróprios, ou de qualquer outro tipo de assédio indesejável. Não falava demais nem de menos, não atrasava pagamento, entrava e saía de sua casa compenetrada e objetivamente. Era como se estivesse despachando no gabinete de um oficial superior. João tinha encontrado nas Forças Armadas seu cliente modelo. (...)”


Zé Luís
Emissário do laboratório na Bolívia

O emissário explicou que o paraplégico porra-louca soubera de sua fuga porque fora interrogado sobre ela. As autoridades de segurança suspeitavam que Alex estaria no comando da operação que o resgatou do manicômio judiciário. Não, não tinha sido ele, mas agradecia a excelente notícia. Àquela altura, o novo laboratório de refino já funcionava a pleno vapor num rancho boliviano próximo à fronteira, comprando a matéria-prima das mesmas plantações e produzindo o Nelore Puro idêntico ao original. (...)

Seu irmão mais velho era um dos sócios do laboratório de refino Nelore Puro, e eventualmente pedia sua ajuda para a comunicação com Alex. O novo receptador da conexão no Rio era um primo de Alex, que morava no Recreio dos Bandeirantes e chegara a tentar bicar o mercado da Zona Sul, sem muito sucesso. Conhecia pouca gente, não conseguia dar vazão nem a dez por cento da carga.

— Cara, então é o seguinte: eles querem saber se você tá dentro de novo. Se estiver, o esquema é o mesmo. Pega a parada uma vez a cada dois meses no estacionamento da Cobal do Leblon ou do Carrefour, na Barra. Te apresento ao Maurício (que ficou no lugar do Alex) e saio fora. Pensa direitinho, porque eu não vou deixar nem o meu telefone contigo. Vai ser ruim de tu me achar de novo — explicou o triatleta. (...)”

Zé Maria
Traficante indiscreto

“(...) Disse ao artista e à fotógrafa que continuassem, enquanto ele retirava uma pedrinha do sapato. O nome da pedrinha era Zé Maria, um traficante de cocaína, maconha e LSD, que estava uns vinte metros à sua frente, telefonando de um orelhão. Fora seu fornecedor durante um bom tempo, por volta de 1991/92. Morava na Freguesia, Zona Oeste da cidade, e a última notícia que tivera dele é que fugira da prisão faltando três meses para o fim da pena. Era dessas figuras persuasoras, renitentes, e diante dele, João já se vira algumas vezes praticamente coagido a ficar com a mercadoria oferecida. Definitivamente, não era fácil se livrar de Zé Maria.

Quando a fotógrafa e Ronaldo já estavam bem adiantados, ele mudou drasticamente o seu trajeto, passando rente à murada da estação das barcas — o mais distante possível daquele orelhão. De cabeça baixa e passo suave, para não chamar a atenção, João ultrapassou o ponto crucial e já apertava o passo para sumir dali, quando ouviu o grito pelas costas:

— Não finge que não me viu, não! (...)”