Jornal: O GLOBO
Editoria:
Segundo Caderno
Edição:
1 Página: 5

TRÁFICO NO ASFALTO CHEGA ÀS TELAS

25/07/2004

A produtora Mariza Leão compra os direitos do livro 'Meu nome não é Johnny' e promete 'thriller com drama humano'
Mauro Ventura

A produtora Mariza Leão pegou o livro 'Meu nome não é Johnny' numa quarta-feira à noite e, na manhã de quinta, encerradas as 336 páginas, disse a si mesma:

— Gente, vou fazer este filme.

Havia um pequeno problema: várias outras pessoas tiveram a mesma idéia — e antes dela. Interessada numa parceria, Mariza procurou Rodrigo Saturnino Braga, diretor-geral da Columbia Pictures, e ouviu:

— Da mesma maneira que você me mandou o livro, fui procurado por outros produtores. Vocês primeiro se entendam.

O livro, escrito pelo jornalista Guilherme Fiuza, conta a história real de João Guilherme Estrella, que se tornou, nos anos 90, o principal fornecedor de cocaína das altas-rodas da sociedade carioca. Filho de um alto executivo do extinto Banco Nacional, Estrella acabou preso e encarcerado na Polícia Federal e no manicômio judiciário. Recuperado, trabalha como produtor musical e dá palestras sobre como sobreviveu ao mundo das drogas.

Lançado em abril pela Record, o livro vendeu cinco mil exemplares e atraiu o interesse de produtoras como a Conspiração e a TV Zero, de distribuidoras como a Lumière e de cineastas como Roberto Santucci e Sandra Werneck.

Mariza ficou mais de 40 dias à espera do sim

Alguns pontos pesaram a favor de Mariza, produtora de filmes como 'Guerra de Canudos' e 'Onde anda você', que ficou '40 e tantos dias esperando um sim' da dupla.

— Ela mostrou muita garra — diz Fiuza. — E tocou em questões sensíveis, como a figura do pai do João, que deu a ele as noções de liberdade, e da juíza, que lhe restituiu a liberdade. Na minha cabeça, sempre houve uma ponte entre essas duas figuras.

Um e-mail enviado por Mariza também foi fundamental. Num trecho, ela escreve: 'EU QUERO FAZER ESTE FILME. Meu maior capital é minha energia, minha experiência, meu desejo. Já movi muitos moinhos e sempre o fiz a partir de um fôlego apaixonado... É este fôlego que ofereço a vocês, além da vivência de ter feito alguns filmes que se basearam em personagens reais, como 'O homem da capa preta' e 'Lamarca'. Estes filmes me ensinaram a conviver com ficção e realidade, personagens e pessoas, resguardando sempre o limite do respeito à história real e o vôo da ficção.'

— Foi o xeque-mate — diz Estrella.

Mariza quer começar a rodar o filme — co-produzido e distribuído pela Columbia — no segundo semestre do ano que vem. Já convidou um ator famoso para o papel, mas prefere não adiantar o nome. Os três ainda não pensaram no roteirista e no diretor. Sérgio Rezende, marido de Mariza, está envolvido na produção de 'Angel', longa de ficção baseado na história de Zuzu Angel.

A produtora avisa que o filme será um thriller. Ou melhor, 'um drama humano em ritmo de thriller'.

— Às vezes, você tem um ótimo personagem e um texto medíocre. Mas o livro tem uma escrita especial e personagens tão bons que seria até difícil inventá-los.

Há a senhora de quase 70 anos, moradora de uma cobertura em Copacabana, que é traficante. Há o tenente da Aeronáutica, um cliente-modelo. Há um dos chefes da conexão, um paralítico cheio de namoradas. Há o violinista clássico que transporta a droga para a Europa.

O exemplar do livro de Mariza está todo riscado. Cada personagem novo que aparece — são mais de 60 — é apontado num círculo. Há perguntas espalhadas pelas páginas, assim como pontos de exclamação assinalando 'situações cinematograficamente fortíssimas'. Como a que relata a prisão de Estrella por policiais federais num apartamento com seis quilos de cocaína. A certa altura, uma das cúmplices apela aos policiais: 'Olha, tô muito nervosa, assim eu não vou agüentar. Vocês se incomodam se eu fumar um baseado?'.

Mariza diz que se trata de uma história 'inesperada'.

— Há uma tendência de se olhar o fornecedor da droga, agente do mal, como o favelado. Não é o caso aqui. Como é que alguém desta classe social, convivendo com a elite intelectual e artística, torna-se um traficante que chegou a movimentar 15 quilos de cocaína de uma vez? — pergunta ela, que ressalva: — Mas o livro ultrapassa o interesse só do tráfico no asfalto e fala muito do lado humano. E é um personagem com muito humor, absolutamente desencanado, que enfrenta situações dramáticas com uma irreverência e uma inconseqüência que tornam as coisas engraçadas.

A produtora prevê um filme de sucesso. Cinco sobrinhos seus já leram o livro e disseram:

— Tia, você vai fazer esse filme? Sinistro!

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