Guadalajara, 3 de junho de 1970. O avião que sobrevoa a Guatemala rumo à cidade mexicana, trazendo um punhado de brasileiros para ver a Copa do Mundo, é repentinamente sacudido. Não há sinal de turbulência no ar. O que abala a aeronave é uma comunicação extraordinária do piloto aos passageiros: ele anuncia que a Copa começou, e a seleção brasileira acaba de derrotar a Tchecoslováquia por quatro a um. Explosão de alegria a bordo. Era o primeiro passo para a histórica conquista do tricampeonato, que daria ao país a sonhada posse definitiva da Taça Jules Rimet. Do aviso da cabine em diante, cada grito de "Pelé!" transforma sumariamente dois desconhecidos vizinhos de poltrona em amigos de infância. No meio de uma congregação de brasileiros íntimos que nunca tinham se visto antes, fundada nos céus do México em menos de dois minutos, João Rodrigues Estrella está dividido. Brinda calorosamente com os que, como ele, teriam o privilégio de ver a Copa ao vivo. Mas não consegue parar de imaginar o que o pequeno João Guilherme estaria fazendo àquela hora. Com a goleada sobre os tchecos, aquele espoleta estaria no mínimo escalando as paredes do apartamento no Leblon. Aos 38 anos, João era um profissional de finanças em rápida ascensão. Tornara-se gerente especial do Banco Nacional, e em pouco tempo era homem da confiança de José Luís Magalhães Lins, um dos principais banqueiros do país. O "banco do guarda-chuva", como ficaria conhecido o Nacional, encontrava-se em franca expansão, e João Estrella era figura de proa nessa ofensiva. Freqüentemente, era o nome escalado para levantar a mais nova agência do banco em algum ponto do Rio de Janeiro. Além da excelência técnica, seu carisma e seu charme lhe rendiam bons negócios e amizades a cada esquina. Gostava de gente. E de futebol. Foi dessa combinação que surgiu, na circulação pelos salões da elite carioca, a aproximação com João Havelange. Do todo-poderoso comandante do futebol nacional (e depois mundial), então presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), viria o convite para ir assistir à Copa do México. João fora sozinho, com o coração pela metade e uma câmera Super-8 na mão. Chegara a uma fase da vida em que certas emoções só lhe pareciam reais se divididas com os três filhos - mesmo que em videotape. Festejou no avião o jogo que não chegara a tempo de ver, mas só sentiu de fato o sabor do triunfo sobre a Tchecoslováquia quando pisou numa agência dos correios em Guadalajara. Dali despachou o primeiro cartão-postal para João Guilherme, 9 anos, seu filho mais velho e depositário de seus melhores sonhos e projetos: "Eu só fiquei imaginando os gritos que você deu a cada goal que o Brasil marcava. Sinto muito a sua falta. Do pai que te adora, João." O menino não só tinha gritado muito, como, para o espanto de sua mãe, Maria Luiza, parecia ter assumido o lugar de João Estrella como promotor-geral da bagunça. Sem nenhuma combinação prévia, tomara sozinho a iniciativa de arregimentar a rua em torno de fogos, bandeirolas e batucada. Saíra fazendo tudo exatamente como seu pai faria se estivesse ali. E a chegada do cartão-postal o motivaria ainda mais. Além da mensagem triunfal, impressionara-o no verso a imagem imponente do estádio Azteca, templo daquela que seria, na Cidade do México, a última de uma arrebatadora seqüência de vitórias brasileiras. João era um obcecado por vitórias, comemorava até par ou ímpar. Queria ensinar o primogênito a também tomar gosto por elas. Subira na vida impulsionado, antes de tudo, pelo desejo simples e bruto de estar no topo. Competir era importante, vencer era fundamental. E o futebol era uma ótima escola para mostrar que o que vale é ser o primeiro. Qualquer que fosse o páreo, sempre que podia, João Estrella chegava na frente. E não poderia deixar de ser o primeiro da rua a ter uma TV em cores, quatro anos depois da viagem ao México. O Brasil ia disputar o tetracampeonato na Alemanha, e só na casa dele, comprada num belo condomínio do Jardim Botânico pouco mais de um ano antes, os vizinhos saberiam que o amarelo era amarelo, e o azul era azul. Estava armado o circo para mais uma vitória ao lado de João Guilherme. Mas era chegada a hora, no futebol e na vida, de adiar os sonhos. Alguns, para sempre. Rio de Janeiro, 17 de julho de 1994. O Brasil finalmente é tetracampeão mundial de futebol. Vinte anos depois da primeira TV em cores de João Estrella. Dez anos depois da sua morte. Num casarão no bairro de Santa Teresa, João Guilherme é mais uma vez o organizador da bagunça. Só que desta vez, em lugar dos fogos e bandeirolas, ele distribui cocaína pura em bandeja aos presentes. O menino criado para vencer chegara ao topo. Mas agora o alvo dos melhores sonhos do pai é o alvo dos melhores homens da Polícia Federal. Em Los Angeles, contra a mesma Itália que João Estrella vira cair diante de Pelé e companhia, o Brasil ganha a Copa dos Estados Unidos. Naquele exato momento, entre os desconhecidos íntimos que a euforia da conquista produzia, João Guilherme conhece a pessoa que virá a ser a ponte para a chegada da sua droga à Europa. Enquanto o Brasil voltava a ter um futebol de primeira linha, ele se firmava como traficante de primeira grandeza. Nos jornais, estouravam as primeiras denúncias do escândalo do Banco Nacional. Fraudes contábeis e um rombo de quase 10 bilhões de dólares levariam a instituição à falência em menos de doze meses. Também no ano seguinte, não muito depois do primeiro aniversário do tetracampeonato, as páginas policiais estampariam a prisão de um peixe-grande do reinado da cocaína no Rio de Janeiro. Com um lauto churrasco na delegacia da Praça Mauá, a Polícia Federal comemorava a captura de João Guilherme. O mundo de João Estrella tinha virado do avesso. |
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